Rádio Rhema Online

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

NEGRITUDES DA MINHA INFÂNCIA QUERIDA...



Refletindo sobre meu último post – um dos menos comentados dos últimos tempos (?); exceto pela visita do amigo Gutierrez Siqueira – recordei-me de um texto trabalhado em sala de aula lá pelos idos de 1985, ainda na 6ª série primária. Que memória abençoada esta minha, não?! Eu tinha apenas onze anos de idade.

Certamente que esta lembrança muito se deve à genialidade e à dedicação da nossa querida professora de língua portuguesa: a Profª Elisabeth. A saudosa mestra sabia como ninguém trabalhar um texto polêmico e, por conseguinte, despertar o senso crítico em seus alunos.

Mas deixando de lado toda esta milonga saudosista, passemos de uma vez por todas ao aludido texto. Creio que ele falará por si.

"SERÁ QUE A MINHA COR VAI SUJAR A ÁGUA?"

"Num domingo, mudo de programa. Vou para um clube com o pessoal da casa. Aviso para a Bete, na sexta, ela dá força, eu não estava muito a fim.
(...)
Parto para a piscina com o meu desconfiômetro de cachorro n'água ligado no máximo.
(...)
Era uma piscina azul, como são as piscinas. Mas aquele azul estava demais, com o calorão que fazia. Era dia de sol forte e tudo. O pessoal dentro dela, então, até convidava sem querer, tão grande a algazarra, ô barulheira infernal.
Eu, sapo de fora, já estava malucão de vontade de cair naquela água gostosa no meio da farra, dos gritos, da brincadeira de jogar água nos outros. Todo mundo brilhava ao sol, todos satisfeitos, molhados, rosados, malpassados.
O que me segurava? Nada. Já de calção, só faltava mesmo era tomar uma ducha e cair n'água, como todos faziam.
Abri a torneira. Nem bem senti a ducha fria direito, um mãozudo qualquer me pegou pelo ombro:
_ Aonde pensa que vai?
_ Eu ia dar um mergulho.
_ Ia, né? Mas não vai.
Era preto o distinto que tomava conta daquilo ali. Primeiro, ele disse que nunca me vira ali, e que não era sócio. Só os sócios podiam freqüentar a piscina.
Tudo bem, ele estava mais do que certo.
Mas, depois, falou que os meninos brancos não iriam gostar nem que eu entrasse nem que eu fosse sócio. E completou a xaropada com uma frase que já ouvi muitas vezes: "Pretinho, conheça o seu lugar".
Quem é negro sabe bem do que falo, e quem é branco também sabe, mesmo que não tenha sentido o que eu sinto. Mas não estou aqui para promover pega de raça. Eu só me defendo. Conheço muito branco bom e muito preto ruim. Mas ninguém é ruim ou bom só por ser preto ou branco. E sei que isso não é novidade nenhuma.
Confiro o meu lugar de antes – quem sabe o fiscal fala de onde eu estava quieto, tomando o meu refrigerante ou ouvindo música? Mas olho meio na gozação. O fiscal nota, claro, e manda o troco:
_ Veja lá, rapaz. Olhe a sua cor.
Não olho a minha cor. Não fico branco de susto. Fico é rubro-negro, o sangue subindo, a vergonha tomando conta da cara. Fico é vermelho, até onde um negro pode envermelhar.
Explico que tomei banho de chuveiro e tudo. Se não tomei a ducha da piscina foi porque ele não deixou. Não adianta explicar nada para um fiscal mal-intencionado.
E a turma só chegando, chegando, forma aquele grupinho, a rodinha de curiosos que a gente vê muito por aí, na rua.
Não vejo a hora de cair fora: Mas, ainda, tento:
_ Será que a minha cor vai sujar a água?
_ Ninguém aqui conhece você. É estrangeiro.
_ Mentira. Não é nada disso. É porque sou preto. Só por isso. E você também.
Ele se sente ferido, eu noto. A cara muda. E fala, com raiva:
_ Cadê a carteirinha?
_ Entrei porque deixaram.
_ Ah, é? Porque achou a porta aberta? Igual cachorro na igreja?
_ Não senhor.
_ Fala, crioulinho mal-educado. É? Cachorro na igreja?
_ Quer saber de uma coisa? Entrei porque estava a fim de criar um caso.
_ Piscina é diferente, pô.
_ Tá bom, tá bom. Se é diferente, eu não nado. Não precisa brigar.
Roberto e Júnior abrem caminho no meio do pessoal, entram do meu lado:
_ É nosso irmão – diz Júnior.
O fiscal dá uma risadona debochada:
_ Irmão preto?
Dr. Marcelo e Dona Sara tinham visto tudo de longe, porque aí já era negócio de clube inteiro tomando partido. E vieram. Mas, já não resolveriam mais nada. O caso já estava criado."


Passados 26 anos, o texto permanece mais atual que nunca...

Prossigo (refletindo) para o alvo... Fp. 3:14

Bibliografia: PRATES, Marilda. Encontro e Reencontro em Língua Portuguesa, Reflexão e Ação. 6.ª série – São Paulo, Moderna, 1985.

1 comentários:

Nazaré Sodré da Silva disse...

Eu li querido! E lembro que esse texto me tocou profundamente, mas não tinha maturidade para "entender"...só sentir.

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